sábado, 4 de janeiro de 2014

O lago avesso de Joana Bértholo






            “Uma sombra não é, com certeza, nada daquilo a que habitualmente chamamos sombra. Quando aqui dizemos sombra, não queremos dizer, obviamente, sombra. Não sugerimos que se trata da:

DICIONÁRIO
Parte de uma superfície
Que deixou de receber luz
Porque entre ela e o foco luminoso
Se interpôs
Um corpo opaco.

            Não se encontrou ainda um dicionário que contenha todas as definições possíveis de uma palavra. Todas as definições íntimas, todas as definições mudas, todas as definições irónicas, todas as definições implícitas. À sombra do próprio dicionário existem todos os outros usos da palavra sombra. Falar de uma integral definição de sombra é falar do próprio dicionário:

            _Não há nenhuma palavra que defina a palavra palavra;
            _A palavra ser por si só, pouco ou nada é;
            _ Não há clareza acerca da claridade
            _Definição não chega para se definir;
            _O indizível nunca deveria ser dito;
            _nem o inenarrável, narrado;
            _A palavra sombra pode nunca chegar a ter a audácia de assumir a sua própria sombra;
           
            _...e em que idioma se debate a linguagem?


            E a sombra é, portanto, e justamente, isso.
            Mas sempre, incluso, o seu oposto.
            É o espaço que se gera quando luz e obscuridade passam a ser uma e a mesma coisa; que o igual e o desigual possam originar-se na mesma fonte; que entre mentira e ficção não há senão uma variação de grau, intenção, gesto. Que entre um Não  e um Sim vai apenas um pouco de boa – vontade:

MULHER
Não.

HOMEM
[abraça-a por detrás e desliza a mão no seu seio direito]
Vá lá...

            Como dois movimentos de dança idênticos, mas em direções opostas.
            Ao dizer que Ella  sombras, não significa que ela veja as sombras. Por ela as ver, não quer dizer que elas sejam visíveis. Este é apenas mais um caso em que é cómodo dizer que ela as mas onde a palavra visão é usada apenas como metáfora para um sentido mais nomeável, uma espécie de intuição. Mas uma intuição que faz mais que intuir, uma intuição inequívoca, perfuradora, cauta, hábil, uma intuição que não duvida, enfim, uma intuição  que chega mesmo a ver. Não como agora se dão a ver estas palavras, impressas nesta folha. É muito mais um ver todas as palavras que tentaram fazer parte deste texto e não chegam a emergir ao entendimento de quem o escreve.

            A sombra inclui as palavras que impressas a branco sobre fundo branco, como estas:  





















Palavras que não deixam de lá estar, mas que ao assumirmos que branco sobre branco não se lê, assumimos que alguns sentimentos não se demonstram. Ignoramos essas palavras porque são obscenas, porque são de mau gosto, porque não respeitam o novo acordo ortográfico, porque estão em idiomas que nunca aprendemos, porque evocam ocasiões das nossas vidas que preferimos não recordar, porque são demasiado íntimas, ou biográficas, e deixam quem as escreve num estado de ingovernável exposição:


MULHER-QUE-ESCREVE
Se escrever isto aqui
Ainda vais gostar de mim?


Pomo-las de lado por não terem a ver com a história, porque confundem ainda mais o leitor dedicado, porque não são literatura, ou porque são literatura de outro e há que respeitar os direitos de autor:


MULHER-QUE-LÊ
I close my eyes and all the world falls dead
I think i made you up inside my head



Mas as palavras e as suas origens só perturbam, nesta coisa do ser, do ser sido, do ser-se. Assim será. Pois é. Já foi.
     É que até a palavra ser , por si só, pouco ou nada é
    Até a palavra ser precisa de um corpo. Que a transporte. No mundo.
     E a partir do momento em que há um corpo,. Lá está

Há uma sombra:

Escuro" pp.191-195





(primeiro fim de semana de 2014. CHOVE.A ler "O lago avesso" )

2 comentários:

sem-se-ver disse...

vê lá é se te despachas a lê-lo para mo mandares

:)

cs disse...

:)