domingo, 27 de outubro de 2013

O Eichmann de Hanna Arendt by me !





Adolf Eichmann é um monstro consciente do extermínio dos judeus ou um eficiente burocrata?

É a partir daqui que leio o excelente trabalho de Margarethe von Trotta "Hannah Arendt ".

Este personagem é um louco amante da maldade ou personifica a “banalização do mal”?

Todo o filme decorre num ambiente apaixonante, revelador duma época em que os inteletuais eram as estrelas com honras de primeira página (agora, tristemente empurrados para as revistas de alguns semanários), uma mistura de fumo de cigarro e tertúlias entre académicos e ou boémios. Uma certa esquerda pensante e , à sua maneira, militante.

O filme tem o julgamento de Eichmann como veículo processual para algo mais doloroso para os judeus. A sua consciência para o que na verdade aconteceu.

Da teoria de Hanna Arendt,  tenho em memória, a divisão em 3  níveis a vida humana:

1- o trabalho que assegura a vida biológica, comum a humanos e outros;
2- a obra, a produção, o acto humano que une os humanos entre si e  ao mundo;
3- e por fim, a política. Esta, o nível  que obriga os humanos, nas suas inter relações,  a exporem-se entre si de uma maneira pública.

As questões que o filme coloca são: como pode ter acontecido e o que aconteceu na verdade com este extermínio? E que punição deve ter Eichmann?

Hanna, num trabalho para o New Yorker, começa por descrever e ponderar no espaço ocupado pelo réu. Eichmann encontra-se durante o julgamento numa caixa de vidro para o proteger dos participantes no processo. É  a olhar a  “jaula de vidro” que ouve um role de histórias horrendas de sobreviventes do holocausto.

Releva também a filósofa, o papel do Procurador Geral, numa postura quase de competição, pelo papel principal, com o próprio Eichmann.  Interroga-se sobre alguma encenação que rodeia o julgamento. Comenta o facto com um velho amigo sionista. Dessa conversa fica-nos a ideia seguinte: os mais jovens não querem enfrentar o “lado negro” do holocausto; sentem alguma vergonha em saber a verdade,  o medo de comportamentos menos honrados já que só poderiam ter sobrevivido aos campos  os criminosos e as prostitutas.

Hanna esperava encontrar em Eichmann um “monstro” mas o que encontra é um velho e anorético burocrata, atrás de uns óculos de massa preta, que surge documentado com todas as ordens que devia cumprir, na disciplina que era a cadeia hierárquica. Um velho burocrata que insiste que nunca prejudicou nenhum judeu. Cumpriu ordens.

Arendt tem claro para si que aquele homem não é um louco, não existia patologia para entender tal formato. Arendt defende que aquele homem nunca assassinaria um seu superior para lhe ficar com o cargo, por exemplo. Não era mefistofélico o seu carácter.

Para Arendt, aquele era uma personagem “impensante”.  Apenas uma personagem orientada pelos princípios de eficiência  e obediência que substituíam a consciência . A  noção clássica do mal – inveja e vingança, entre outras – não existe, antes uma “banalidade  do mal ” cujas consequências são devastadoras.

No SPIEGEL, num recente artigo, e por causa deste filme, perguntava-se:  nas sociedades modernas, que significado tem esta “banalidade do mal”, que não lhe tem associada nenhuma patologia, mas que se desenvolve numa divisão do trabalho sofisticada e muito tecnicista? A quem vamos responsabilizar pelas mortes provocadas pelos drone? Quem carrega no botão ou alguém mais distante?

Mesmo existindo teorias de que Eichmann foi um farsante em Israel, Arendt acreditava nele. É inquietante.

Um filme excelente. Uma realização excelente. Uma abordagem excelente.
Uma BARBARA SUKOVA excelente.

Só espero que seja o pontapé de saída para vermos outras teorias, outros filósofos.

cs

(apoiado num artigo do jornal SPIEGEL e “A Condição do Homem Moderno”, de 1958, Hanna Arendt)

2 comentários:

via disse...

Também me entusiasmou o filme, tanto que me pus a ler o Eichmann em Jerusalém e, contrariamente ao que pensava antes, cheguei à conclusão através do livro, de que esta personagem não era um mero burocrata não pensante, pelo seu discurso de defesa trespassa reflexão, calculismo, nada relacionado com banalidade.

cs disse...

via

concordo consigo e fiz questão de o referenciar no texto. Talvez não tenha ficado muito explicito, mas era isso mesmo que queria relevar neste parágrafo.

"Mesmo existindo teorias de que Eichmann foi um farsante em Israel, Arendt acreditava nele. É inquietante."