quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A poesia





“Em face da sua imagem ou da sua sombra, o homem realiza um dia o encontro decisivo com os seus limites. A aventura misteriosa de Narciso repete-se desde a infância em frente de cada espelho. Gostaríamos de nos tocar do lado de lá sem quebrar o vidro ou turvar a água. E como Peter Schlemmil pouco importaria vender a sombra ao Diabo, e com isso o tempo se detivesse sobre o nosso rosto e pudéssemos ser, fosse um só instante, a absurda criatura imóvel e transparente que nos sonhamos.
A aventura é impossível pois a imagem e a sombra são reais. Isso significa que um mundo nos cerca, nos divide e nos limita. Jamais seremos esse que pode ver-se face a face. Mas o jogo é demasiado sério para o perdermos ao primeiro gesto. Se não nos podemos olhar procuremos entre os monstros, os demónios e os deuses que criamos, esse rosto impassível que o vento e a chuva de cada dia não nos consentem.
Foi assim que o encontro com um monstro nos ofereceu aquilo que as divindades excessivamente magníficas e as potências infernais não nos puderam dar: a expressão mais rara dum ser que não chega ao fim dos próprios braços, como é um homem. É impossível reconhecer um homem em  Anúbis de focinho de chacal ou uma mulher em Ísis, a virgem-mãe da face de lua. Mas é fácil reconhecê-lo nesse ser ambíguo que os antigos Egípcios talharam na rocha do deserto e os Gregos ágeis deixaram errar perigosamente pelos caminhos de Tebas e Corinto . Espírito da Terra capaz de romper através da vida obscura da inércia animal para oferecer uma face de Deus ao apelo universal da luz, a Esfinge é encarnação perfeita da ambiguidade radical da situação humana. E ao mesmo tempo a realização plástica mais concreta do acto original do homem: a poesia.”


Lourenço, E.,2003:27, Tempo e Poesia. Gradiva.

2 comentários:

via disse...

a poesia. always!!

cs disse...

Via
É um facto. A poesia, sempre