quarta-feira, 12 de junho de 2013

O retorno. 2012







"A mãe insiste para que o pai se sirva da carne assada. A comida vai estragar-se, diz, este calor dá cabo de tudo, umas horas e a carne começa a esverdear, se a ponho na geleira fica seca como uma sola. A mãe fala como se hoje à noite não fossemos apanhar o avião para a metrópole, como se amanhã pudéssemos comer as sobras da carne assada dentro do pão, no intervalo grande do liceu. Deixa-me, mulher. Ao afastar a travessa o pai derruba a cesta do pão. A mãe endireita-a e ajeita as côdeas com o mesmo cuidado com que todas as manhãs ordena os comprimidos antes de os tomar. O pai não era assim antes de isto ter começado. Isto são os tiros que se ouvem no bairro acima do nosso. E as nossas quatro malas por fechar na sala."

Dulce Maria Cardoso. 
O retorno. 2012:7


Confesso que voei para o baú das minhas memórias e da minha vinda para a metrópole. Não tão penoso, felizmente não estive em nenhum hotel como este livro descreve, nem tive ou senti grandes dores, mas muitas vezes recordo-me do olhar dos meus pais. Um relato do outro lado. O olhar de quem chega. Um excelente documento de uma histórias que é feita com todos.

DMC escreve de maneira muito particular.Entre a forma como nos descreve o ambiente até à pontuação, é distinta esta forma de aglomerar ideias e palavras. É fascinante a forma como se socorre da pontuação. Como entre virgulas se pontuam enormes e fascinantes diálogos. 

Até pode ser um pouco cansativa esta técnica porque nos abriga a uma leitura atenta e não descontraída.Não de deve ler de uma assentada, mesmo que depois das 3 ou 4 primeiras páginas fiquemos agarrados à narrativa da autora. 

O tema é abordado de forma séria e não nos deixa descontrair. A DMC não permite que desliguemos e tomemos uma cerveja. Ou lemos ou saboreamos a cerveja. A essência humana passa ali disfarçada. O que é ser pessoa não se dissocia do percurso da pessoa. As marcas deixadas são profundas. Os tempos conturbados, como se lê tantas vezes no livro, entre um comentário sério e duro e alguma comicidade (assim li).

Um olhar bem diferente dos Cadernos da Isabela. Uma leitura dura mesmo que numa escrita quase suave sem ser descontraída.

Gostei.

4 comentários:

Maria de Jesus Lourinho disse...

Que nabice a minha. Depois de ter enviado email dizendo que não conseguia comentar, vi logo como o fazer. Só queria dizer que também gostei muito deste livro, mas tenho a visão dos "de cá". Não sei se leu, mas escrevi isto
http://1diaatrasdooutro.blogspot.pt/search/label/Dulce%20Maria%20Cardoso
Um livro que me fez bem.

cs disse...

Nao li na altura que publicou. Também gostei muito. A história precisa de distanciamento para ser escrita. Este é só um exercício de escrita que tenta abordar este lado da história. Um bom exercício.

sem-se-ver disse...

só agora deste por ele, rapariga? mas mais vale tarde! :))

bjinho, sua retornada

cs disse...

não ssv. Só agora o li :))