Avançar para o conteúdo principal

Darwinismo social, por Leonel Moura

Sigo o Leonel faz uns 5 anos, desde uma exposição ali para os lados de Alcântara onde fui ver os seus robôs/artistas em ação. Homem acessível e do séc. XXI e que desde então recebo , com muita assiduidade, recebo por email noticias dos seus trabalho
Deixo-vos aqui um artigo 



O darwinismo social anda de novo por aí. Nos discursos oficiais, no programa dos governos, nas políticas europeias, na cabeça de intelectuais e comentadores. Resume-se numa ideia simples. Só os mais fortes sobreviverão aos desafios do tempo presente. Os fracos serão varridos.O darwinismo social surgiu em finais do século 19 aplicando algumas ideias de Darwin à sociedade humana. Darwin não teve culpa, nem voz na matéria. Mas a sua teoria da seleção natural que favorece os mais aptos e mais fortes, eliminando os inadaptados e fracos, serviu bastante bem aos defensores daquilo a que agora chamamos neoliberalismo e, no extremo, conduziu, entre outras coisas, ao fascismo, às raças superiores e ao extermínio dos judeus, ciganos e outros grupos considerados decadentes pelos nazis.Fora de moda por algum tempo, o darwinismo social tem vindo a ganhar terreno nos últimos anos pelo efeito conjugado do forte stress ambiental provocado pela emergência das novas tecnologias e pela sobrevalorização do chamado mercado livre (que, diga-se de passagem, de livre não tem nada). A revolução tecnológica em curso tem levado a fenómenos de inadaptação em massa, enquanto a desregulação dos mercados tem provocado sucessivas crises financeiras e políticas e cavado um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Neste contexto, vai emergindo um conjunto de ideias e práticas que sobrevalorizam a competição, a lei do mais forte, os nacionalismos, a arrogância, as segregações de toda a a espécie. É assim que hoje usamos palavras que nos parecem ajustadas mas que, vistas de perto, derivam da visão do darwinismo social. Competitividade, por exemplo, uma das mais vulgarizadas, reproduz o mecanismo da seleção natural, no qual só os que são muito competitivos conseguem vencer. Os outros, sejam eles pessoas ou países e a quem falta o "killer instinct", condenam-se ao ostracismo e à extinção. Também as políticas de austeridade em curso têm tudo a ver com o darwinismo social. Trata-se de uma brusca alteração no meio ambiente, provocada expressamente pelos governos, como forma de eliminar os mais fracos e favorecer os mais fortes. A este propósito, basta atender às palavras de Passos Coelho com os seus conselhos para os jovens emigrarem ou quando afirma que o desemprego é uma oportunidade, ou seja, adaptem-se ou perecerão. Ou melhor ainda, ouvir os atuais governantes alemães. Neste caso, não estamos longe de uma espécie de eugenismo social e cultural, sendo que nós, portugueses, gregos, espanhóis e outras minorias preguiçosas e decadentes temos de mudar ou seremos extintos. Como diz um amigo, no panorama atual ou nos tornamos alemães ou morremos.O darwinismo social conseguiu generalizar a ideia de que só se cria qualquer coisa de novo e inovador, ou se tem sucesso na vida, por meio de um comportamento ferozmente competitivo. Esquece outras componentes fundamentais da criatividade, desde logo a cooperação, a combinação ou a sinergia, sobrevalorizando a disputa brutal e selvagem, aliás, a mesma que impera hoje nos mercados financeiros com o resultado que se conhece.Mas esquece outra coisa. A humanidade inventou algo que não existe nos genes nem nos processos evolutivos naturais. Chama-se cultura. E esta tem uma lógica divergente da mera competição entre fracos e fortes, predadores e presas. A cultura leva os humanos a fazerem coisas que vão contra a genética. Por exemplo, a ética, o altruísmo, a solidariedade. A cultura cria um quadro de comportamento moral e civilizacional que não tem paralelo na seleção natural. E gera também sentimentos de injustiça e de revolta como forma de resistir à brutalidade da competição. Atraente para alguns, porque estimula comportamentos agressivos e apresenta como tolerável o intolerável, o darwinismo social representa, na verdade, um retrocesso na própria evolução civilizacional da espécie humana. Afinal vivemos para a competição feroz ou para a felicidade? Existimos para exterminar os outros ou para melhorar a condição de todos?

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Papelaria Pérola Branca - Coimbra

Gosto de Livros. Gosto muito de comprar livros. Gosto do cheiro dos livros. Gosto de andar na pesquisa de livros. Ali na Pérola Branca, R. Combatentes G.G. 35 3030-181 Coimbra não tem a última edição da Montanha Mágica, de 26 euros com Capa XPTO, mas tem a edição dos livros Brasil América por 20 euros(estejam à vontade, caso não saibam o que oferecer aqui à CS. :)))). Está tudo a monte? sim. Não há muito espaço? não. Tem lá de tudo? TEMMMMMMMMMM e melhor ainda, tem aquilo que os gigantes do mercado livreiro não arriscam. Eu curto a Pérola Branca em Coimbra. E gosto destas Edições em que o Nome do Livro é o mais importante. Vê-se bem e não me enganam. Desculpa lá Bertrand. E pronto lá me vou recolher nos estudos de Arte e Técnica, na guerra das duas culturas, do C.P.Snow e blá blá blá.

O final de 2017

às vezes apetece voltar. Sim, voltar e escrever  Escrever é um processo que funciona de  diferentes maneiras  Pode ser um grito um sufoco mas é sempre egoísta é egoísta usar as palavras para interpretar usar as palavras para purgação usar as palavras para direcionarmos a atenção para nós escrever é morrer devagar lentamente. É despedida e é tristeza

Africa : See You, See Me!

O projecto Africa.cont e a Câmara Municipal de Lisboa apresentam a exposição de fotografia «AFRICA: SEE YOU, SEE ME!», a partir de 1 de Outubro no Museu da Cidade , em Lisboa. O Africa.cont apresenta a exposição que retrata a história da fotografia africana. A mostra aborda a influência da auto-representação dos africanos e da diáspora nas formas contemporâneas de fotografar África. De acordo com o curador da exposição, Awam Amkpa, o nome da exposição «AFRICA: SEE YOU, SEE ME!» «foi retirado de um trabalho artístico de um ‘Mammy Wagon’ que vi numa estrada nigeriana há muitos anos atrás». «O camião pretendia que todos os que viajávamos nas perigosas estradas nigerianas tivéssemos consciência da presença uns dos outros, e brindássemos à audácia mútua de seguir em frente», acrescentou Awam Amkpa. A exposição, que vai abrir no dia 1 de Outubro (com entrada gratuita) e poderá ser visitada até 28 de Novembro, no Pavilhão Preto do Museu da Cidade, em Lisboa, está organizada em três partes ...