segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mentiras






As das crianças, para não serem castigadas; 
as dos apaixonados de uma noite quando prometem um amor eterno;
as de quem tudo vende, corpo e alma, para subir o preço desses bens; 
as dos que inventam histórias inverosímeis em busca de atenção;
as dos médicos, quando compreendem que já não é possível; 
as dos candidatos a eleições; 
as dos melhores actores, tão perfeitas que se tornam verdade; 
as dos padres de todas as igrejas anunciando a salvação; 


as mais inofensivas ou as mais perversas; 
as mais piedosas ou as mais cruéis; 
as que todos descobrem num relance; 
as que só se conseguem detectar num momento feroz de lucidez; 
as que apenas se dizem ao telefone quando falta a coragem de um olhar; 
as que começam por pedir desculpa e geram outras cada vez maiores até que uma só vida se transforme em duas ou três vidas paralelas; as que explodem de súbito, lavadas pelas lágrimas de uma confissão; 
as que perduram pela vida inteira como um crime perfeito e levamos connosco para o túmulo. 


Sobre elas assenta desde sempre o que chamamos mundo, o que chamamos ainda humanidade. 
Como o sol ou a água, sempre foram imprescindíveis para a vida humana e Atlas agradece-as porque tornam mais leve, dia a dia, o peso dos seus ombros.


FERNANDO PINTO DO AMARAL,2009 in POEMAS ESCOLHIDOS 1990-2007 
(Pub. Dom Quixote)

2 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem dizido!

;-)

Anónima

cs disse...

anónimos é fixe
;(