sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A rosa na boca de um jacaré

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"A felicidade é disparatada como uma rosa na boca de um jacaré. Em seu esforço para não ser um jacaré, extasia-se o homem na felicidade de o não ser completamente dizendo isso num sorriso monstruoso que é uma rosa na boca de um jacaré. Ah! como o assassino é legível na ária da felicidade que lhe floresce na boca! Todos os assassinos trazem uma flor na boca; um sorriso de metódicas navalhas. Todos os felizes são assassinos , ou vitimas, é a mesma coisa. Recusar a felicidade é vomitar a memória , deslembrança do sitio onde o ouro se transforma em chumbo.

Só conheço uma espécie de miseráveis: os felizes. Porque a felicidade é o tributo que pagam à miséria da existência.

Somos no que nos excede e só a infelicidade verdadeiramente nos excede. A alegria também um pouco porque é a resplandecente e frenética ironia da felicidade não existir.

Um novo dia! Dizem os felizes, perfurando as paredes da esperança para espreitarem suas nádegas operárias do vício solitário do triunfo nos quartos de curta permanência que a felicidade aluga. Um novo dia! Diz gota a gota a baba com que os felizes tecem seu sequestro de esperançosas toupeiras.

Como se não houvesse sempre e apenas um só dia, uma onda ininterrupta, eternamente solta trespassando-nos na vida que os campos sáfaros da existência alaga. Um volátil e fixo sustenido de platina de um intocado violino que os felizes fingem dividir em agulhas com que malcriadamente palitam os olhos nos sítios mais concorridos"

Natália Correia. Poesia Completa, 2007(1999):332. 3ªed. Publicações Dom Quixote


4 comentários:

Bípede Falante disse...

Lembrei-me de um livrinho que eu tinha quando muito pequena. Uma ovelhinha ia saltitante por uma estrada e o narrador dizia: lá vai, Bolinha de Neve, trililim, trililim. Então, a certa altura ele tinha de passar por uma ponte. Quando ele chegava nela, escorregava e, no rio, havia um jacaré com a boca aberta.
beijoss

cs disse...

Ovelhinha caiu da boca GRANNNNNNDEEEE do jacaré .
Boca grande transporta-me sempre para verdades muito "cronografadas" e que se esvaziam na efemeridade das palavras.
bjoca

mfc disse...

Apreciei, mas não subscrevo tanto nihilismo!

cs disse...

mfc
a linguagem consegue esvaziar tudo a nada. O "nadismo" ou negação de referências que nos leva ao nada daquilo que julgamos existir. Ando numa fase niilista :)