
LONDRES
Escrever sobre outros Países e outros povos sempre achei uma ousadia, confesso. Agora, ainda mais, quando estou enfiada até às orelhas no mundo das etnografias e onde ando numa acalorada discussão/confusão entre como fazer uma “descrição densa” à lá Geertz e “como seguir cientistas nas suas práticas laboratoriais” com Bruno Latour. Ver o outro, como observador, e produzir uma narrativa interpretativa é coisa que me parece obra de grande dificuldade (esta coisa da alteridade tem muito que se diga).
Tenho andado entretida, mais por imperativos pessoais (o poder das imagens) do que por outros mais nobres, a ouvir opiniões acerca do que as imagens nos têm mostrado sobre o que se passa ou passou em Londres. A verdade é que o meio onde me movo - onde passo imensas horas a trabalhar e a ouvir – quase todos, quase sem excepção, se à uns meses atrás, meteriam aqueles jovens transgressores na prisão hoje a opinião é o silêncio. (Sim, sei que a palavra transgressores não é a que me move, mas facilita e sustenta o que quero dizer). O interessante é que, em meia dúzia de meses, a postura alterou-se, um silêncio e olhar apreensivo é o que observo. Arrumar aqueles distúrbios numa prateleira tipo “vão trabalhar malandros” nem ao menos avisado dos portugueses já serve.
Será porque a distância não é grande? Se aquilo se passasse nos EUA era num mundo à parte e não nos dizia tanto? Londres é mais pertinho e a E-dreams leva-nos lá por 30 euros? Não o leio desta maneira. De todo não concordo.
A minha interpretação é diferente.
Interpreto que o mais inculto dos seres neste País já percebeu: ali em Londres, ou aqui no Barreiro, ou ali atrás de um telemóvel a obter imagens de espancamento numa qualquer escola de Amadora chegámos a um estádio de desenvolvimento desta sociedade absurda e ridiculamente incapaz de satisfazer quem quer que seja, chamada por alguns de pós-moderna (sim senhor Latour, qual pós moderna se nunca chegámos a modernos? quando muito a-moderna). Está chegada a altura de um outro paradigma de desenvolvimento. O ambiente e a ecologia não chegam. Temos todos de nos comprometer sem vergonhas e medos.
Vimos cair Marxismos (quem sabe estaria na altura de reler o amigo Marx) e olhamos para esta sociedade financeiramente descapitalizada mas socialmente capitalista e não vimos saída. Claramente que existe um qualquer caminho, um re novado mundo, um qualquer Big Bang social que vire as premissas do avesso; desconstrua; globalize equitativamente; sei lá.
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