Avançar para o conteúdo principal

Passeando por outros blogs

É JÁ AMANHÃ, OU DEPOIS O MAIS TARDAR


"Depois de amanhã ou Nem tudo está perdido."

"Sonhei que chegava ao trabalho e me sentava para a reunião de passagem de turno. Ninguém falava, mas à segunda-feira as coisas arrancam devagar. Olhei, interrogativo, a Valeria, que fizera o turno da noite. Como ela se mantivesse calada, disse, sem elevar a voz: - Podemos começar. A Valeria olhou nervosamente para os apontamentos.- Aconteceu alguma coisa?- perguntei, enquanto procurava os olhos da Júlia. A Júlia é a chefe de serviço e coordenadora do departamento. Quando me esqueço de alguma coisa- o que sucede com alguma frequência nos últimos anos- ela toma a palavra com naturalidade. Também me substitui em algumas conferências e, desde Janeiro, acompanha-me às reuniões do Conselho. Mas a Júlia não levantou os olhos. Então, do lado esquerdo, aproximou-se o Rogério, o jovem promissor que o Conselho contratou em novembro, e, com aquela voz mansa que sempre me irritou levemente, disse: -Precisamos de falar.
- Depois de receber o turno, se não se importa- respondi, com autoridade.
- Acho que o senhor ainda não percebeu, Dr.Santos, nós já passámos o serviço- continuou o Rogério, sempre de pé, ligeiramente inclinado, do meu lado esquerdo.
Voltei a procurar a Júlia e pela segunda vez ela me falhou.
- Achamos que chegou a hora de ser substituído na direcção da empresa, Dr. Santos. Espero que compreenda essa necessidade e se integre no Novo Espirito, como a esta hora está a suceder por todo o lado, neste país, e em toda zona mediterrânea.
- Mas substituído por quem, ó Rogério ? E por ordem de quem? E por alma de quem? -tentei ironizar, calando prudentemente a minha surpresa pela erudição geopolitica do Rogério.
- Por mim - respondeu o rapaz. Ordens do Conselho, interpretando o Movimento a que pertenço.
- Do Conselho? - interroguei perplexo?
- De alguns membros do Conselho- explicou ele, tolerante.- Os mais jovens.
- Mas porquê você, Rogério ?- comecei eu, jogando na divisão, e olhando cúmplice para a assistência. - Você, Rogério, tem um contrato magnifico, bem mais vantajoso do que o meu, ao que julgo saber. E, se se trata de promover uma renovação geracional, por que não dar o lugar à Dra.Júlia, muito mais preparada que você, caro Rogério, perdoe a franqueza.
- A Dra. Júlia faz parte da classe que deteve o poder, Dr. Santos, ou esteve perto dele, ou perto da geração do poder. As coisas mudaram, queira deixar essa cadeira.
Tentei protestar. - Cidalia, tu que tanto protegi. - Fernando, que levei à conferência de Munique. - Serena, o que vai ser do teu projecto de doutoramento?
Levantei-me da cadeira. Igual às outras, afinal. Mas, pela colocação na sala e pelo uso que eu lhe dera, simbolizava a minha tíbia direcção. Se alguma coisa sei é a força que têm os símbolos. E também sei que em épocas destas é preciso respeitar gente como o Rogério e os membros mais jovens do Conselho. Tenho a pensão da minha mãe para defender - nem tudo está perdido."

Etiquetas:

Comentários

mfc disse…
A propósito... estive ontem na manifestação no Porto por essas e outras razões!
Senti a vibração do querer daquele imensidão de pessoas!
...e senti que alguma coisa vai mudar!

Mensagens populares deste blogue

Lispector, C., parte 1

A paixão segundo G.H. (1965) – – – – – – – – estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi — na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro. Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser — se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele. Perdi alguma coisa que me era essencial, e que ...

"Cartas grandes porque não tenho tempo de escrever pequenas"

Eu nunca sei, neste ou naquele caso, o que sentiria.  Às vezes nem mesmo sei o que sinto. ( …) O meu estado de espírito actual é de uma depressão profunda e calma.  Estou há dias, ao nível do Livro do Desassossego. E alguma coisa dessa obra tenho escrito.  Ainda hoje escrevi quase um capítulo todo. Pessoa, F., 1914,   Cartas de Fernando Pessoa a  Armando CôrtesRodrigues (Introdução de Joel Serrão) Lisboa:Conflu~encia, 1944  . 3ª Ed. Lisboa:Livros Horizonte, 1985-36