
“À sua direita tinha como vizinha um ser sem brilho, vestido de negro, a tez aveludada, de faces ligeiramente febris, que ele imaginava ser costureira ou modista, talvez por só beber café e comer pão com manteiga – por alguma razão, imagem de modista estivera desde sempre associada, no seu imaginário, à de um pequeno-almoço frugal. À esquerda estava sentada uma senhora inglesa, também já de idade avançada, muito feia, de dedos magros e enregelados, que lia cartas da sua terra escritas em letra muito redonda, ao mesmo tempo que beberricava um chá cor e sangue. Seguiam-se Joachim e a senhora Stohr envergando uma blusa de lã escocesa. Comia com a mão esquerda fechada encostada à cara e esforçava-se nitidamente por transmitir um ar distinto ao falar, contrariando o lábio superior e mostrando uns dentes de coelho compridos e estreitos. A seu lado sentou-se um jovem de bigode fininho que dava a sensação de ter ingerido algo com um sabor detestável. Tomou o pequeno almoço no mais absoluto dos silêncios. Chegou quando Hans Castorp já se encontrava à mesa, inclinou ao de leve, e ainda antes de se sentar, o queixo em sinal de saudação, sem olhar para ninguém, e tomou o seu lugar. A sua atitude deixava claramente perceber que não desejava ser apresentado ao novo hóspede. Talvez estivesse demasiado doente para dar atenção e importância a tais banalidades ou tivesse perdido todo o interesse por aquilo que o rodeava. À sua frente sentou-se, por breves instantes, uma rapariga muito loira e extraordinariamente magra. Despejou um frasco de iogurte no prato, comeu-o à colher e afastou-se de novo sem demora.
A conversação à mesa não era muito animada. “
Retirado de “Pequeno Almoço”,III capitulo de
Montanha Mágica de Thomas Mann, 1924
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