sábado, 20 de novembro de 2010

As meninas de Velasquez


Não que a palavra seja imperfeita, nem que, em face do visível, ela acuse um déficit que se esforçaria em vão por superar. Trata-se de duas coisas irredutíveis uma à outra: por mais que se tente dizer o que se vê, o que se vê jamais reside no que se diz; por mais que se tente fazer ver, por imagens, por metáforas, comparações, o que se diz, o lugar em que estas resplandecem não é aquele em que os olhos projectam, mas sim aquele que as sequências sintácticas definem. Ora o nome próprio, nesse jogo, é apenas um artificío: ele permite que se aponte com o dedo, isto é, permite passar sub-repticiamente do espaço em que se fala para o espaço que se olha, ajustando-os assim comodamente um ao outro, como se fossem adequados.Porém, se quisermos manter aberta a relação da linguagem e do visível, se quisermos falar não contra mas a partir de tal incompatibilidade, de tal modo que fiquemos o mais perto possível de uma e do outro, então é necessário pôr de parte os nomes próprios e permanecer no infinito da tarefa. Talvez graças a esta linguagem baça, anónima, sempre meticulosa, e repetitiva, porque demasiado lata, a pintura pouco a pouco se ilumine.
É mister, portanto, fingir não saber quem se reflecte no fundo do espelho e interrogar esse reflexo ao próprio nível da sua existência.
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A Palavra e as Coisas, Michel Foucault

Depois deste livro, ninguém mais olhou para esta tela da mesma forma.
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1 comentário:

Bípede Falante disse...

é por isso que eu acho que todas as palavras deveriam ser transformadas em verbos, que, em ação, elas seriam mais visíveis. E é por isso que gosto de vir aqui sentidar os meus 5 queridos!! :)
bjs.