quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Susan Sontag - Olhando o Sofrimento dos Outros




Há uns dias atrás, ouvia a autora de um estudo para uma Tese de Mestrado, acerca da hipótese de arte ser cancro, baseando o seu discurso num conjunto de fotografias supostamente chocantes, supostamente ARTE, supostamente algo que seria a "normalidade", daquelas doentes.

Se fugia a essa "normalidade" ou não seria um outro estudo? Esse interessa-me. Recordei Susan Sontag.

Quando a tragédia se torna comum. Quando a invasão de certas fotografias entram por direito próprio no nosso o dia-a-dia, terão estas imagens o poder de nos chocar ou o poder de tornar a não “normalidade” um lugar-comum?

E a percepção que temos da realidade sofre alguma erosão com o bombardeamento diário destas imagens “chocantes”? Sontag, Susan, 2003, Olhando o Sofrimento dos Outros.

Aquilo que SONTAG se questionava acerca das imagens de guerra, lembro o clássico, Ensaios sobre Fotografia, não é difícil, hoje, fazer-se a mesma associação, e colocarmos as mesmas questões com imagens de hospitais, de doentes oncológicos, de mulheres com mamas restantes.

As imagens, aquelas imagens podem criar dissensões, e é esta divergência, este contraste que faz delas ARTE?

Não me incomodaram as imagens, são o meu dia a dia e com elas convivo.

É uma questão que me acompanha faz tempo, o uso que se faz hoje da Doença e da dor. A apetência mercantil de imagens de doença, de imagens de dor, sondas, suturas, maquinas frias, de tudo o que dentro do mundo hospitalar, extravasa para um mundo "cá de fora", que consequências tem?

Radiografias em forma de informação, redimensionando sentimentos em momentos de dor.

SONTAG, deixa-nos em 2004, depois de passar por um Sindroma mielodisplásica seguida de uma Leucemia mielóide Aguda aos 71 anos.

Olhando o Sofrimento dos Outros, 2003 a última obra de Susan Sontag.


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3 comentários:

Internéscio Silva disse...

Perfeita.

Bípede Falante disse...

Nunca tinha pensado na dor sob essa perspectiva mercantilista. Como não trabalho nessa área, fica-me um tanto distante. Mas você está certíssima. Porque essas radiografias guardam mais que imagens.
Você trabalha em que exatamente??
beijo
Eu sou jornalista.

cs disse...

Bípede
eu trabalho na área da imagiologia médica.
Bom tema para jornalista este. Bom livro para jornalista, este também

:)