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Mensagens

Nómada solidão

Justyna Kopania
pernoitas em mim e se acaso te toco a memória… amas ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos escuto o rumor da terra molhada a fala queimada das estrelas
… é noite ainda o corpo ausente instala-se vagarosamente envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras e nenhum lume irrompe para beberes…
Al Berto

Os meus verdes, a tuberculose deles

cs
Pneumotórax Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico: — Diga trinta e três. — Trinta e três… trinta e três… trinta e três… — Respire.
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. — Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? — Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira


Alice Vieira

"esperar que voltes é tão inútil como o sorriso escancarado dos mortos na necrologia do jornais
e no entanto    de cada vez que a noite se rasga em barulhos no elevador e um telefone se debruça de um sexto andar
sinto que ainda ficou uma palavra minha esquecida na tua boca
e que vais voltar para devolver"

Mais silêncios

Dense wood - Don Resnick (b.1928)


"(...) vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areio  por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."
Lispector , 1986:94 

Sábados

Igor Morsky

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível; com ele se entretém e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu, sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito, que o respirar de um só, mesmo que seja o meu, não pesa num total que tende para infinito.
Sei que as dimensões impiedosas da Vida ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo, nesta insignificância, gratuita e desvalida, Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
António Gedeão

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Às vezes sinto-me completa de vazios. cs

A Magia ao Luar, W.A.

A Magia ao Luar, de Allen, vive entre a razão e a ilusão.Raramente Allen deixa a magia prevalecer à razão.Aqui Allen confronta o seu lado de convicto ateu com uma enorme curiosidade pela vida espiritual. Um céptico que vê todas as suas certezas abaladas perante os feitos de uma garota com inegáveis poderes mediúnicos. O céptico, exclusivamente crente da ciência, cai num dilema existencial. Debate-se entre fé e racionalidade, entre Hobbes, Freud e Nietzshe e a ideia de que a vida é esta coisa sem sentido, por um ladoe por outro, a vida depois da morte. O que nos espera?
A comédia está aqui, um personagem montado nas certezas da ciência e a ter de aceitar o outro lado, o lado dos tolos. E este facto, o lado dos tolos, permite a felicidade e a alegria. Não equilibrando a magia e a razão, antes olhando a magia como condição necessária para a vida de qualquer humano é o que fascina nesta obra de Allen.