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Mensagens

Hoje

apetece-me vestir abraços.

Em legítima defesa

Duarte Belo


Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues …

Anatomia de vontades

UM AMOR

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão, 
puxaste-me para os teus olhos 
transparentes como o fundo do mar para os afogados. 
Depois, na rua, 
ainda apanhamos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice, 'A Partilha dos Mitos'

A poesia

“Em face da sua imagem ou da sua sombra, o homem realiza um dia o encontro decisivo com os seus limites. A aventura misteriosa de Narciso repete-se desde a infância em frente de cada espelho. Gostaríamos de nos tocar do lado de lá sem quebrar o vidro ou turvar a água. E como Peter Schlemmil pouco importaria vender a sombra ao Diabo, e com isso o tempo se detivesse sobre o nosso rosto e pudéssemos ser, fosse um só instante, a absurda criatura imóvel e transparente que nos sonhamos. A aventura é impossível pois a imagem e a sombra são reais. Isso significa que um mundo nos cerca, nos divide e nos limita. Jamais seremos esse que pode ver-se face a face. Mas o jogo é demasiado sério para o perdermos ao primeiro gesto. Se não nos podemos olhar procuremos entre os monstros, os demónios e os deuses que criamos, esse rosto impassível que o vento e a chuva de cada dia não nos consentem. Foi assim que o encontro com um monstro nos ofereceu aquilo que as divindades excessivamente magníficas e as …

Loading...a esquecer...!

Lembro-me do teu andar na minha direção e do primeiro olhar.
Lembro-me do esforço que fazia para ali mesmo não te respirar e o apenas te sorrir.
Lembro-me da dor que era deixar-te e em passo sereno correr para casa como se esse ato encurta-se o tempo de voltar
Lembro-me de esconder o aperto que me dava não estar mais perto de ti.  Lembro-me do medo de todos perceberem que estava apaixonada
Lembro-me da quietude do teu abraço e do consolo do teu beijo.
Lembro-me do teu corpo nos meus abraços e braços.
Mas...mas o tempo. Sim o tempo...
O teu rosto teimosamente sedesvanece nos sonhos, o teu sorriso, a tua voz... Foge-me o bocadinho que começavas a ser em mim.